sábado, 5 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Entre o nascer e o morrer...


O jantar em família costumava ser, para ela, o momento de maior alegria, quando se sentia mais em casa. Era como se, naquela mesa, o mundo a acolhesse. Era como se tivesse um motivo de ser, um lugar no cosmos, quando estava na sua cadeira e todos os outros estavam nas suas.
 Ocorre que, de um tempo para cá, a jovem anda alheia a esse mundo. Nem ela sabe ao certo o que aconteceu, mas não consegue mais sentar-se com seus pais e irmãos, rezar de olhinhos fechados e simplesmente ser acolhida pela cadeira. Noite após noite, senta-se no lugar que sempre lhe pertenceu. Sente, no entanto, não pertencer àquele lugar. A ausência não é percebida. Todos agem com naturalidade, tratando dos seus importantíssimos assuntos corriqueiros. Ninguém nota o lugar vazio na mesa do jantar.
...você viu o cabelo novo da vizinha?...
É estranho como tudo parece estar errado no mundo ou como ela parece estar errada no mundo. É difícil ser como uma engrenagem sem encaixe, como um parafuso solto.
...a taxa de juros está mais alta que nunca!...
É indigesto estar à mesa e não gostar do que está posto. É doentio como as pessoas empurram suas imbecilidades goela abaixo, como um banquete de carnes podres.
... ela se casou com um cara divorciado!...
É terrível olhar para a vida e encontrar a insensatez, enxergar a pequenez, ver que tudo funciona perfeitamente pela concatenação de absurdos.
...o padre novo da paróquia nem sabe falar direito!...
É insano saber que nada daquilo importa. É maluco perceber que está cercada pela cretinice. É pirado sonhar quando está sentada à mesa de jantar.
...me passa o suco, por favor?...
É insuportável! Como pode viver sabendo que não é parte daquilo? Como pode simplesmente ser mais uma nesse mundo sujo, desigual, monstruoso? Como pode tomar parte disso?
... como é que é, vai me passar esse suco ou não?
O grito do pai veio como um vento gelado esbofeteando seu rosto. Acordou de um devaneio. Passou o suco e engoliu seco. Comeu o bife que lhe cabia. E a Terra continuou a girar.  

domingo, 22 de abril de 2012

Teorema, de Pier Paolo Pasolini (1968).


Queria postar alguma coisa sobre esse filme, a que assisti recentemente, por indicação de uma amiga. Na verdade, nem sei bem o que vou escrever, visto que não manjo nada de linguagem cinematográfica. Espero que não pareça que estou querendo fazer uma crítica fajuta, ou algo do gênero. Meu único objetivo é falar um pouquinho sobre o longa, que muito me agradou. É só pitaco, tudo bem?
Pasolini era um comunista italiano, cineasta graduado em literatura, homossexual. Nascido em 1922, quando realizou Teorema, aos 46, já tinha bastante experiência em cinema. Eu acho interessante notar que seu perfil era quase um clichê, para alguém que marcaria o campo das artes no emblemático ano de 1968. Nunca é demais lembrar que esse é o ano X das mobilizações estudantis pela Europa, um ano considerado revolucionário, no qual o grande inimigo habitava o terreno da cultura. 68 marca a luta contra valores, a luta por ideias.
Teorema, a meu ver, encaixa-se perfeitamente neste contexto. O filme retrata a crise do sistema capitalista, a partir da desestruturação de um dos seus pilares fundamentais: a família burguesa.
Na primeira parte da narrativa, um sujeito misterioso hospeda-se na casa de uma família tradicional. Um a um, os membros dessa família vão sendo seduzidos por esse rapaz: primeiro a empregada, depois o filho, a mãe, a filha e, por fim, o pai. A segunda parte começa quando o hóspede se vai, deixando um imenso vazio naquele ambiente. Cada um dos personagens tem sua vida radicalmente transformada. A empregada passa a levar uma vida ascética, alimentando-se de ervas e realizando milagres; o garoto se descobre homossexual e resolve ir embora de casa para construir uma vida de artista; a mãe começa a buscar aventuras sexuais com rapazes mais jovens; a filha entra em estado catatônico e é internada; o pai abandona sua empresa.
Na brilhante cena final, Paolo, o pai, despe-se completamente em plena estação ferroviária e vaga nu pelo deserto. O grito que encerra a película é das coisas mais significativas que eu já vi no cinema. Expressa, de modo soberbo, a liberdade quase franciscana de quem deixou tudo para trás e pode agora buscar o novo. Por outro lado, fica a sensação de angústia de quem vê o mundo desmoronando e não sabe pra onde ir, na imensidão daquele deserto que é a sua interioridade.
Em Eros e Civilização (1955), Herbert Marcuse realiza o casamento entre seus pressupostos marxistas e a teoria Freudiana. Para ele, é possível construir uma nova sociedade sem a repressão sexual que possibilitou a existência humana e que sustenta a experiência moderna. A repressão da sexualidade é a responsável pela sociedade falocêntrica e alienada, em que não passamos de predicado da nossa própria criação.
Não sei dizer o quanto Pasolini estava contaminado por esse aparato conceitual, mas com certeza, estava pelo espírito geral de sua época. Nesse sentido, o diretor reflete justamente sobre a crise do núcleo familiar a partir das relações sexuais, tanto as relações efetivas quanto as reprimidas. A transformação social se daria, dessa maneira, pela crise das relações simbólicas de dominação sexual no seio familiar. Esse, ao que parece, é o teorema a ser demonstrado, que dá nome à película.
Ocorre que, no filme, nem tudo é expresso com todas as letras. Aliás, o grande mérito do diretor é explorar significados e sensações através dos olhares, dos corpos, do grito. Por isso, não quero deixar ninguém intimidado. Não precisa ter lido esse ou aquele livro pra ver o filme, não precisa ter a mesma interpretação que eu. Muito pelo contrário, o que mais me agrada nas artes é que cada pessoa terá uma relação muito diferente com aquilo que é visto.
Bem, fica minha recomendação de filme genial e inesquecível. Ele pode ser baixado via torrent, tem no The Pirate Bay. Se o fantasma do Pasolini voltar do céu e puxar seu pé, cobrando os direitos autorais, eu retiro tudo o que disse. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Portão


Nos idos de 2008, encontramos uma salsicha solitária, conservada no freezer de uma república suja. Era o nosso freezer, da nossa república contaminada com a nossa sujeira; e sim, aquela definitivamente era nossa salsicha, comprada com o suor do rosto dos nossos papais e mamães... Era nossa, por direito! Acontece que a salsicha era rebelde, fugiu do seu saco e do seu destino... Não virou recheio pra cachorro quente, virou revolucionária.
Foi meio por acaso que conhecemos Salsichards, com seu bigodón e belos olhos azuis. Na verdade, nem lembro ao certo como tudo aconteceu. Imagino a fome furiosa que tínhamos na brisa noturna de um dia qualquer, quando vasculhamos a geladeira atrás de alguma coisa que pudesse ser devorada e encontramos a salsicha revolucionária, recusando-se terminantemente a cumprir sua função social de ser comida.
Nós, por outro lado, de revolucionários não tínhamos nada. Não passávamos de vagabundos: deitados o dia inteiro, tomando café, colecionando bitucas e brincando de “adivinhe a música”; ou fazendo qualquer coisa que nos convencesse de que estávamos ocupados demais pra ir à aula.
Salsichards nos persuadiu a criar esse blog e escrever sobre as coisas da vida, a sair daquele marasmo e dizer algo ao mundo. Nós apenas nos deixamos levar por suas palavras de ordem e fizemos um esforço mínimo pra escrever aqui. Uma vez a cada muitos meses, alguém punha a bunda na cadeira e despejava alguma irrelevância. Até que finalmente, sem mais nem menos, nós paramos de postar. Eu parei de escrever. A fonte havia secado.
Acontece que outro dia, vejam só, ao abrir o freezer aqui de casa, dei de cara com o velho amigo Salsichards. O safado veio até Jundiaí só pra me pregar uma peça. Conversamos por horas... Ele me disse coisas sobre a Revolução das Salsichas e passou o resto do tempo insistindo pra que eu voltasse ao blog. E como sou volúvel, aqui estou!
Estar de volta é como estar no freezer com Salsichards. É estar entre velhos amigos. É congelar o tempo, deixando a amizade sempre conservada. É suprimir o espaço, estando em São Paulo, Jundiaí, Londrina, Itapetininga, Bauru e Berlim tudonomesmolugar. É despejar alguma irrelevância de forma metafórica pra parecer inteligente. É não saber como terminar o texto e mesmo assim fazê-lo.


Atenção: Sou um cara bastante democrático, por isso proponho uma votação.

Se você acha que eu devo continuar a escrever por aqui, deixe seu comentário OU não faça nada.
Se você acha que eu não devo continuar, ligue 0800-45325-5835-43111 OU dê uma mortal pra trás.

Não deixem de votar! 

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Totalmente demaaaaaais...

Uma das melhores obras poéticas do país, do mundo, do universo, DA BAHIA!

***

"Linda como um neném,
Que sexo tem, que sexo tem?
Namora sempre com gay.
Que nexo faz, tão sexy e gay?

Rock´n´roll,
Pra ela é jazz.
Já transou
Hi-life, society,
Bancando o jogo alto.

Esperta como ninguém,
Só vai na boa,
Só se dá bem.
Na lua cheia tá doida,
Apaixonada, não sei por quem.

Agitou um broto a mais,
Nem pensou...
Curtiu, já foi,
Foi só pra relaxar!

Sabe sempre quem tem,
Faz avião, só se dá bem.
Se pensa que tem problema,
Não tem problema:
Faz sexo bem!

Seu carro é do ano,
Seu broto é lindo.
Seu corpo, tapete do tipo que voa.
É toda fina.
Modelito design.

Se pisca, hello.
Se não dá, bye-bye.

Seu cheque é novinho, ela adora gastar.
Transou um Rolling Stone no Canadá.

Fazendo manha,
Bancando o jogo.
Que mulher!

Totalmente demais...
Demais!
Totalmente demais...
Demais!"

(Hanoi Hanoi - "Totalmente demais")

***

Só pra dizer que postei alguma coisa esse semestre,... já que estou aqui na aula de Planejamento Gráfico e Editorial III e, além do professor, têm mais 8 pessoas na sala e 3 delas estão indo embora neste exato momento. haha

Beijo pra todos.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Inocência

O sítio era pequeno, provavelmente corria o risco de ser rebaixado da categoria "sítio" caso fosse alguns centímetros menor. Um pomar, uma horta, animais, enfim, tudo o que se encontra num sítio, havia lá.

Oito horas da manhã, o caseiro estava ali sentado, encostado na jaboticabeira. Meia idade. Barba por fazer há quatro, talvez cinco dias. Pele clara. Tinha os olhos azuis, caídos, e vermelhos, também com um toque amarelado, provavelmente resultado da soma das incontáveis doses de cachaça da madrugada anterior com a aparente cirrose hepática.

Ela tinha oito anos. Era verão e ela usava uma camisola rosa, um pouco acima dos joelhos, chinelos brancos e os cabelos presos por um laço, também branco. Corria atrás das pombas, tentando fazer disso algo divertido, enquanto a avó, dona do sítio, preparava o café.

Os olhos vermelho-amarelados a observavam enquanto brincava. Ela retribuía o olhar e sorria, inocentemente.

O homem acenou com a mão:

- Ei! Pequena! Venha aqui me dar uma ajuda.

Caminhou até ele. Logo notou suas pernas fechadas e as mãos sobre algo, entre sua barriga e as coxas, que ele parecia esconder. Parou em sua frente, já com o olhar curioso, imaginando o que haveria escondido ali entre suas pernas. Seria uma fruta? Uma pedra, uma flor? Não, ela não conseguia disfarçar. Queria saber o que tinha em suas mãos. Ele percebeu e prontamente sorriu um sorriso cínico, vulgar. Talvez o lobo-mau tivesse aquele mesmo sorriso no rosto quando a Chapéuzinho Vermelho se aproximou dele.

Ele abriu uma das mãos. Segurava, com a outra, o pinto.


No mesmo momento, o olhar curioso da menina tornou-se espantado. E antes que ela pudesse reagir, ele a pegou pelo braço.

- Venha cá, não tenha medo... pode fazer carinho.

Ela não queria, forçava seu corpo para a direção oposta. Mas ele era mais forte, muito mais. Puxou o frágil braço dela em direção às suas pernas e a fez tocar o pinto.

- Isso... agora faz carinho. Pode fazer.

Ela estava assutada, mas obedecia. Sempre calada.

- Viu como ele está gostando?

Ela continuava calada, acariciando. Ele também acariciava.

- Bem, agora vamos fazer o seguinte... vamos colocá-lo ali dentro.

Não, ela não queria.

- Vamos, não precisa ter medo!

Ele se levantou, ainda com o pinto na mão, e a levou com ele, pelo braço.

Ela olhava o pinto.

Viu quando o homem, cambaleando, colocou o pinto dentro do galinheiro e fechou a portinhola.

A galinha ficou feliz em rever o filho fujão.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Inalo,
Bebo,
Ingiro,
Enterro.
Com pó...
Fumaça...
Ácido...
Sufoco.
Para que não acabe comigo,
Me acabo...

T.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O video secreto.

Descobri um vídeo que alguns integrantes/agregados da Meia-Bomba fizeram há algum tempo. Isso é algo que precisa ser divulgado.

Deliciem-se:



Sem mais para o momento.

domingo, 2 de maio de 2010

Só pra...

... dizer que postei algo em 2010.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Aos meus amigos, meus amores.

Pois é pessoal... O pavio de 2009 está bem curtinho agora! E, apesar da iminente explosão, parece que ele vai mesmo é se apagar para que uma nova luz se acenda ao ano de 2010.
Caramba, quanto cliché! Mas é aquela coisa, um ano nem acaba e as esperanças vão ressurgindo no coração de cada um como que por encanto. É ridículo, eu sei, mas não esperem que eu seja O chato e sopre a velinha que arde hoje no peito dos antes desiludidos, recém iludidos. Não, eu não!
Pelo contrário, vou eu mesmo criando projetos, fazendo promessas, me preocupando com coisas que eu sei que não realizarei, não cumprirei, me esquecerei. Que 2010 termine cheio das mesmas desilusões, de outras desilusões... Não importa! Que venham as desilusões que tanto alimentam nossos projetos e promessas; que venham as ilusões!
É tudo questão de ótica, mas essa época do ano me parece fantástica, muito mais que o resto dele. O ano, ao passar por nós, sempre nos machuca. E quantos machucados não doeram nesse ano?! Quantos blues e sertanejos foram derramados com nossas lágrimas de cotovelos?! Quantos analgésicos para curar os arrependimentos das nossas noites embebidas em sorrisos amargurados?! Quantos exercícios de recuperação pelas nossas falhas na academia?! Não importa os quantos, não importa o quanto 2009 doeu, devemos, nessa época, sonhar com o que vem.
Desejo a todo mundo um 2010 cheio de blues e sertanejos, de lágrimas de cotovelos, de analgésicos e arrependimentos, de noites, bebidas e sorrisos amargurados, de recuperação, de falhas. Que o ano que chega seja cheio das ressacas de quem sonha... Mas de dia, pra não perder a madrugada.
Um brinde a luz de nossas velas a todos os amigos que não temos e os amores que não vivemos! Ainda.